“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

E se todo o mundo é composto de mudança,

Troquemos-lhe as voltas, que ainda o dia é uma criança!”

(Luís de Camões, cantado e adaptado por José Mário Branco)

Ao pessimismo conformista do soneto original de Camões, José Mário Branco, na sua adaptação dada a conhecer em 1971, sobrepôs uma chamada de atenção para a responsabilidade de todos na tomada de decisões e de ações que permitissem outra(s) mudança(s). E que, dessa forma, cada um, no seio da comunidade, pudesse passar a ser dono do seu próprio destino.

Ainda que num momento e por razões completamente diferentes, também a atual pandemia obriga a profundas e (talvez) permanentes mudanças no nosso modo de pensar, de agir e de estabelecer e viver as relações interpessoais. Cabe, por isso, a cada um de nós a responsabilidade de tomar medidas que possibilitem uma transição e adaptação saudáveis a novas formas de estar e de viver no mundo. Ou seja, e uma vez mais, cabe a cada um de nós aproveitar a mudança, mas “trocando-lhe as voltas” e dela tirando os benefícios possíveis, para todos.

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Desde 9 de maio, início deste projeto, que os psicanalistas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise se envolveram na tarefa de criar pequenos textos, nos quais a vivência subjetiva do momento ganhasse forma em palavras, em pequenos textos de variados ritmos, recorrendo frequentemente à arte expressa por escritores e poetas. Falaram sobre o medo, o tempo suspenso, a morte, a angústia, a esperança, a criatividade, o amor, a solidariedade e o cansaço. Falaram também da violência humana e da injustiça, do sentimento de impotência e de ilusão.
Dia a dia, criaram textos que falavam de si e dos outros, numa procura de sentido e de sentires. Tentaram dar nome à inquietante estranheza que brutalmente nos invadia.
O imenso testemunho de que todo este projeto fala perdurará para além deste momento marcante da nossa história mundial, nacional e pessoal. Para o conjunto dos membros da nossa Sociedade Portuguesa de Psicanálise este tem sido um tempo e um processo de aprendizagem, de coesão, de partilha, de exposição e de transformação, no encontro com o outro, da relação existente e imaginada com o possível leitor.
Este foi um dos projetos em que nos envolvemos por acreditarmos que a Psicanálise pode e deve participar mais activamente na comunidade, nomeadamente, em momentos em que o Ser Humano é obrigado a sofrer e a realizar alterações tão profundas na sua vida.
Falámos de pesadelos e de histórias tranquilizadoras, da criatividade e generosidade humanas e muito, mas muito, do desejo de saber e de participarmos na construção do pensamento e do conhecimento. E não há conhecimento sem verdade, por mais dolorosa que ela seja. Desistir das falsas ilusões é conhecer a realidade e poder criar e lutar por sonhos, ainda que por vezes estes possam parecer utopias.
“Transformar é Viver” significa para nós que Viver é sempre Transformar, mesmo quando não temos consciência de o estarmos a fazer.
Até sempre!

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