Há milhões de anos, alterações das condições de vida favoreceram o surgimento da postura ereta e do bipedismo nos nossos antepassados mais remotos. O estreitamento da bacia daí decorrente obrigou a que as fêmeas parissem crias muito pequenas e imaturas, incapazes de se socorrerem a elas próprias. A sua extrema fragilidade tornou-as dependentes de cuidados externos e a tal ponto que, sem eles, morreriam antes de terem alcançado a capacidade de se reproduzir.

A situação de vulnerabilidade original do bebé do homem revelou-se incrivelmente vantajosa: a imaturidade neuro-cerebral presente à nascença é um fator de plasticidade que permite o surgir, sob a influência das estimulações sociais e ambientais, de uma infinidade de conexões cerebrais individualizadas. Assim, se a prematuridade do recém-nascido parece ter privado o ser humano de esquemas comportamentais instintivos bem constituídos, dotou-o de uma capacidade cerebral, até então nunca vista, para poder aprender a partir das suas próprias experiências relacionais.

Por outro lado, o desamparo original favoreceu a emergência e a seleção, no seio da espécie, de comportamentos de ajuda e de assistência aos mais desprotegidos. Podemos ver aí a origem racional – porque essencial à sobrevivência da espécie – de um núcleo transcultural de ética, isto é, de práticas de cooperação, de troca e de reciprocidade, culminando no desenvolvimento daquilo a que comummente chamamos solidariedade.

Talvez possamos pensar que hoje, mergulhados nesta pandemia, o que nos pode salvar é essencialmente o mesmo que nos permitiu aceder à condição humana: a capacidade de aprender a partir da experiência e de fazer conjeturas sobre o futuro e a capacidade de empatizar  e de cuidar dos outros.

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Desde 9 de maio, início deste projeto, que os psicanalistas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise se envolveram na tarefa de criar pequenos textos, nos quais a vivência subjetiva do momento ganhasse forma em palavras, em pequenos textos de variados ritmos, recorrendo frequentemente à arte expressa por escritores e poetas. Falaram sobre o medo, o tempo suspenso, a morte, a angústia, a esperança, a criatividade, o amor, a solidariedade e o cansaço. Falaram também da violência humana e da injustiça, do sentimento de impotência e de ilusão.
Dia a dia, criaram textos que falavam de si e dos outros, numa procura de sentido e de sentires. Tentaram dar nome à inquietante estranheza que brutalmente nos invadia.
O imenso testemunho de que todo este projeto fala perdurará para além deste momento marcante da nossa história mundial, nacional e pessoal. Para o conjunto dos membros da nossa Sociedade Portuguesa de Psicanálise este tem sido um tempo e um processo de aprendizagem, de coesão, de partilha, de exposição e de transformação, no encontro com o outro, da relação existente e imaginada com o possível leitor.
Este foi um dos projetos em que nos envolvemos por acreditarmos que a Psicanálise pode e deve participar mais activamente na comunidade, nomeadamente, em momentos em que o Ser Humano é obrigado a sofrer e a realizar alterações tão profundas na sua vida.
Falámos de pesadelos e de histórias tranquilizadoras, da criatividade e generosidade humanas e muito, mas muito, do desejo de saber e de participarmos na construção do pensamento e do conhecimento. E não há conhecimento sem verdade, por mais dolorosa que ela seja. Desistir das falsas ilusões é conhecer a realidade e poder criar e lutar por sonhos, ainda que por vezes estes possam parecer utopias.
“Transformar é Viver” significa para nós que Viver é sempre Transformar, mesmo quando não temos consciência de o estarmos a fazer.
Até sempre!

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