O homem, ao encontrar-se face a uma situação pandémica, encontra-se também com as suas velhas vulnerabilidades. Estas andam agora de mão dada com um risco e perigos reais e concretos. Assim, uma das formas desta vulnerabilidade se manifestar é pela procura ansiosa de uma razão, de uma justificação externas como, por exemplo, teorias da conspiração mais ou menos sofisticadas. Como se, tornando a preocupação localizável e identificável, esta se tornasse mais facilmente dominável e gerível. Portanto, menos angustiante. Uma outra, muitas vezes complementar, expressa-se pela busca de curas rápidas, de preferência indolores e quase mágicas.

Numa época em que o acesso à informação pode ser tão fácil e democrático, quanto não mediado e filtrado, é especialmente importante não deixar que a dispersão de informação mate o conhecimento e a capacidade crítica de a pensar e refletir.

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Desde 9 de maio, início deste projeto, que os psicanalistas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise se envolveram na tarefa de criar pequenos textos, nos quais a vivência subjetiva do momento ganhasse forma em palavras, em pequenos textos de variados ritmos, recorrendo frequentemente à arte expressa por escritores e poetas. Falaram sobre o medo, o tempo suspenso, a morte, a angústia, a esperança, a criatividade, o amor, a solidariedade e o cansaço. Falaram também da violência humana e da injustiça, do sentimento de impotência e de ilusão.
Dia a dia, criaram textos que falavam de si e dos outros, numa procura de sentido e de sentires. Tentaram dar nome à inquietante estranheza que brutalmente nos invadia.
O imenso testemunho de que todo este projeto fala perdurará para além deste momento marcante da nossa história mundial, nacional e pessoal. Para o conjunto dos membros da nossa Sociedade Portuguesa de Psicanálise este tem sido um tempo e um processo de aprendizagem, de coesão, de partilha, de exposição e de transformação, no encontro com o outro, da relação existente e imaginada com o possível leitor.
Este foi um dos projetos em que nos envolvemos por acreditarmos que a Psicanálise pode e deve participar mais activamente na comunidade, nomeadamente, em momentos em que o Ser Humano é obrigado a sofrer e a realizar alterações tão profundas na sua vida.
Falámos de pesadelos e de histórias tranquilizadoras, da criatividade e generosidade humanas e muito, mas muito, do desejo de saber e de participarmos na construção do pensamento e do conhecimento. E não há conhecimento sem verdade, por mais dolorosa que ela seja. Desistir das falsas ilusões é conhecer a realidade e poder criar e lutar por sonhos, ainda que por vezes estes possam parecer utopias.
“Transformar é Viver” significa para nós que Viver é sempre Transformar, mesmo quando não temos consciência de o estarmos a fazer.
Até sempre!

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