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Transformar é viver

Diz o psicanalista Jacques Lacan que, quando surge um acontecimento na realidade que abre um buraco no conhecimento e para o qual não temos imagem, a humanidade tem que escolher entre a negação e o delírio, entre a neurose e a psicose.
Ou seja, o desconhecido gera angústia no ser humano, que recorre a defesas psíquicas para conseguir lidar com a ansiedade extrema: uns negam a realidade, encontrando-se em festas alargadas e evitando o uso da máscara. Outros, pelo contrário, ativam cenários catastróficos e tomam medidas radicais de proteção: muda de roupa várias vezes por dia, banhos consecutivos, desinfeção da casa de cima abaixo, evitamento social.
Diz o virologista Pedro Simas, para quem apesar de não se saber tudo sobre o Covid-19, sabe-se muito sobre os coronavírus: “Vejo medo na sociedade. Medo de olhar para os factos. Medo de usar o conhecimento. Medo de agir com base no conhecimento”.
Seremos capazes de substituir o medo pelo pensamento?

“Não existem métodos fáceis para problemas difíceis” (René Descartes)
Ainda a tentar aprender a lidar com as condicionantes inerentes à manutenção de um número significativo de novas infeções, vamos sendo prevenidos para uma eventual segunda vaga.
Para enfrentar os desafios futuros teremos de aliar esforços e conhecimentos, não apenas porque a solidariedade é uma ferramenta essencial no desenvolvimento e na sobrevivência do Ser humano, mas também porque a complexidade do problema, e a sua escala, a isso obrigam. A maior vulnerabilidade a que estamos expostos, à escala global, obriga a uma mudança de paradigma.

Face a uma pandemia que nos coloca a todos estado de emergência (um estado que o nosso mundo interno acompanha), observamos formas várias de lhe sobreviver. E este é o lugar a partir do qual somos, de certa forma, postos à prova: Encontramo-nos numa posição que evoca a necessidade da nossa preservação, bem como a dos outros - os que nos são próximos e queridos, mas também a comunidade em geral, da qual somos inter-dependentes.
Assim, ser capaz de entender e aceitar a ameaça e o perigo reais exige-nos paciência, resistência e tolerância à frustração. O mundo atual, apesar da aparência familiar, é agora simultaneamente um mundo que ameaça justamente a familiaridade dos nossos hábitos, do modo como nos relacionamos, como expressamos os afetos.

Freud foi o primeiro a dizer que no comportamento humano há um conteúdo manifesto, aparente, e um conteúdo latente, inconsciente, secreto. Maquiavel, em o Príncipe falou das estratégias de poder. Vamik Volkan fala-nos nas agendas secretas das negociações diplomáticas. Assistimos a um mundo em mudança que apanhou a boleia da pandemia.
A violência, o racismo, o desprezo pela vida irrompem sempre na sombra das disrupções humanas e/ou ambientais.
"Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

 

Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz

 

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Vira também (...)"
José Afonso, "Menino do Bairro Negro"

Uma das coisas mais maravilhosas do ser humano é a sua capacidade para empatizar e criar. E neste momento, tão particular e difícil que vivemos, como mobilizar esta nossa capacidade?
Vamik Volkan, na sua análise dos grupos grandes, diz-nos como nas catástrofes os traumas vividos são muitas vezes seguidos por uma grande produção artística.
Nos grandes grupos, sociedade, tribo, nação, nos quais há uma identidade comum bem estabelecida por afinidades culturais e geográficas, a sua dinâmica perante uma ameaça, como catástrofes naturais ou infligidas por outros grupos, mostra uma série de sinais que vão no sentido ora da regeneração do grupo ora na sua degeneração.
As sociedades mostram muitas vezes a conjugação dos dois polos, consoante a repercussão inconsciente que o acontecimento traumático teve nas suas raízes identitárias culturais e sociais.
E nós, como vai ser?
Qual e para quando o lugar para a solidariedade e a esperança?

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