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Transformar é viver

Este tem sido o tempo do Medo. Mas será que o Medo tem Tempo?
O mundo actual é, em muitas dimensões, o eco do mal-estar dos que o habitam… E aí, onde se situa a pandemia? E o medo? Como se articulam medo, solidariedade e violência? Qual a sua relação com o (re)emergir ou o declinar de muitos dos valores de carácter humanista? Ou será que o medo sempre lá esteve, na imensidão do escuro? Tem forma? Conteúdo? É agora mais visível? Na imprevisibilidade do perigo? Surge mais intenso naquilo que a esperança ilude?
De que forma é que a intensidade do medo estará correlacionada com a desproteção? O abandono?
“(...) Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une (…)”
Diz-nos o poeta em “Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir”- Álvaro de Campos.
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 34.
1ª versão: Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944.

Ele chegou até nós quando a luz, mais doce e luminosa, anunciava a primavera. Invisível, impalpável, omnipresente, desconhecido, podia estar em qualquer sítio, no ar que se respira, no puxador da porta, no teclado do computador, no abraço envolvente, no toque de uma criança. Sim, podia estar em qualquer sítio e era ameaçador. Um vírus, uma ínfima porção de matéria organizada. Percorreu milhares de quilómetros, veio de um mercado longínquo, provavelmente “nasceu” a partir de um morcego e proliferou pelo mundo inteiro.
E, no entanto, já se falava dele, ainda que não se conhecesse a sua fisionomia coroada nem o seu nome. Várias personalidades (entre elas, Bill Gates), várias instituições (por exemplo, a Global Preparedness Monitoring Board, a Organização Mundial de Saúde) já tinham previsto a sua chegada, que arrastaria milhões de mortos e a devastação da economia mundial.
Simples adivinhação? Não, apenas conhecimento! E o que fizemos, o que fizeram os nossos governantes com esse saber?
Agora, alguns meses volvidos, não podemos deixar de pensar que este vírus também pode ser uma oportunidade de mudança. Todos sentimos o quanto somos cidadãos do mundo e não apenas da nossa pequena “aldeia”. Habitamos uma casa, que é a Terra, que tem recursos finitos e fazemos parte dum ecossistema, que tem o seu devir. A saúde, o clima, a cultura, a economia não são bens privados – são bens comuns. Não somos donos do mundo, fazemos parte dele, como os vírus, a água, as árvores, o vento. Tudo está ligado. “O bater de asas de uma borboleta no Japão pode causar um tufão nos Estados Unidos”, dizia Edward Lorenz nos anos 60. Urge construir uma nova maneira de nos habitarmos e de habitarmos o mundo, uma maneira baseada na humildade, no respeito, na solidariedade. Por nós, pela nossa gratidão pelas gerações passadas e pela nossa responsabilidade pelas gerações futuras.

Apesar do mundo ter já atravessado muitas outras pandemias, apesar de todos os dias morrerem milhares de pessoas com fome e outras doenças, a Covid-19 tomou de assalto os medos da humanidade: se inicialmente foi necessário um confinamento rápido e geral, permanece em muitas pessoas o medo de desconfinar: medo de sair, de estar com os outros, medo do regresso à escola, medo de ir às compras, ou ao restaurante.
Alguns estão convencidos de que a escolha é entre a saúde e a economia, esquecendo-se que a economia também é vida, porque a queda da economia será a doença e a morte de muita gente que deixa de ter o que comer. Outras falam da saúde como se só existisse um corpo com órgãos, esquecendo a saúde psicológica e social (as crianças que precisam de aprender na relação com o professor e os colegas, as crianças que ficaram fechadas em famílias disfuncionais, os idosos que deixaram de poder estar próximos das pessoas de que gostam). Outros ainda estão focados na Covid-19, esquecendo-se de todas as outras doenças que, em alguns países, matam muito mais - cólera, dengue, peste, febre amarela - e, no mundo ocidental, cancros, doenças cardiovasculares, diabetes...
Como em tudo na vida é necessário encontrar um equilíbrio, já que, como diz a sabedoria popular, “no meio está a virtude”.

“Normalizar” a vida é promessa de uma vivência de segurança e quietude que só transitoriamente acontece. O mundo tem sido assolado por muitas convulsões e as “normalidades” têm vindo a suceder-se, cada uma diferente da que a precedeu. Essencialmente, o que tem mudado no percurso são as estratégias e as intensidades – fertilizantes de resiliência – no convívio rotineiro com a nossa humanidade que tem vivido os seus mesmos problemas de maneiras diferentes no mundo da vulnerabilidade que é onde todos nós habitamos.
Na mais sadia das possibilidades, a história passada integra-se na história futura.
A mudança para a “normalidade” que se segue foi inesperada, é abrupta e violenta mas, como em outras catástrofes, a força da vida impõe-se e as pessoas sempre encontrarão meios de a viver.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
E se todo o mundo é composto de mudança,
Troquemos-lhe as voltas, que ainda o dia é uma criança!”
(Luís de Camões, cantado e adaptado por José Mário Branco)
Ao pessimismo conformista do soneto original de Camões, José Mário Branco, na sua adaptação dada a conhecer em 1971, sobrepôs uma chamada de atenção para a responsabilidade de todos na tomada de decisões e de ações que permitissem outra(s) mudança(s). E que, dessa forma, cada um, no seio da comunidade, pudesse passar a ser dono do seu próprio destino.
Ainda que num momento e por razões completamente diferentes, também a atual pandemia obriga a profundas e (talvez) permanentes mudanças no nosso modo de pensar, de agir e de estabelecer e viver as relações interpessoais. Cabe, por isso, a cada um de nós a responsabilidade de tomar medidas que possibilitem uma transição e adaptação saudáveis a novas formas de estar e de viver no mundo. Ou seja, e uma vez mais, cabe a cada um de nós aproveitar a mudança, mas “trocando-lhe as voltas” e dela tirando os benefícios possíveis, para todos.

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