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Transformar é viver

Gonçalo M. Tavares, um dos maiores escritores vivos portugueses, escreveu um dia uma “pequena nota” que intitulou “Viver”:


“Atacado ao longo do caminho por salteadores que o roubam e maltratam, o homem, sobrevivendo, regressa por fim a casa para preparar a próxima viagem.”
Nestes tempos de pandemia, os nossos profissionais de saúde procuram “ao longo do caminho” proteger-nos a todos do “vírus salteador” que nos quer “roubar e maltratar”.
Estes profissionais de saúde, com a sua coragem e profundo humanismo, “sobrevivem” e “regressam a casa para preparar a próxima viagem”. Devemos-lhes também a eles a palavra “Viver”…
(Gonçalo M. Tavares, 2012. “breves notas sobre a ciência; breves notas sobre o medo; breves notas sobre as ligações (Llansol, Molder e Zambrano)”. Relógio D`Água)  

Quando o medo entra pelo dentro de nós, o tempo suspende o seu devir lançando-nos para um agora sem fim. Tudo pára, menos o medo que se agiganta e nos inunda. Só ele existe. Paralisados e impotentes não somos mais nós mas apenas um nada.
Quando o medo entra pelo dentro de nós, também podemos ficar com tanto medo que nos viramos ao contrário. Não temos medo, somos invulneráveis, omnipotentes, tudo sabemos e tudo podemos. Não somos mais nós, somos deuses.
Na verdade não somos um nada e também não somos deuses. Apenas humanos. Não somos senhores do mundo, inter-relacionamo-nos com ele. Somos fortes e vulneráveis. E temos medos. E o medo, tal como o sal e a pimenta q.b. nas receitas culinárias, é um tempero que pode enaltecer os sabores. No momento presente, em dose adequada, permite-nos abrir a porta de casa, sair para a rua e extasiarmo-nos com o verde esfusiante da primavera sem nos esquecermos de nos proteger a nós e aos outros.

“Em clima de otimismo, as autoridades sanitárias reforçam a necessidade de mantermos cuidados que assegurem a proteção, e animam-nos!
Neste contexto de esperança, urge reforçar a confiança na Ciência e não ceder à desinformação - sobretudo, aquela que, a reboque de um pensamento imaturo e mágico, almeja a cura, movida pela grande angústia de morte, que se vem disseminando em todos nós…
Manter a esperança implica, também, renunciar a posturas omnipotentes, que ilusoriamente nos tornam invulneráveis à infeção…
Somos criaturas vulneráveis, também dotadas de razão. Reconhecer a vulnerabilidade e manter cuidados razoáveis torna-nos mais seguros…
Esperança rima com cuidados, bom senso, e maturidade 😉
E temo-nos uns aos outros!”

 “Calam-se as  cordas. A música sabia o que eu sinto” - Jorge  Luís Borges, 1981( La cifra )
Silêncio, estranheza, perdas várias e a realidade da morte impuseram-se como uma ameaça à desobediência, atiçando também os  nossos fantasmas internos. Pânico  e negação surgiram como reação ao que nos descarna a evidência da fragilidade e o controlo que vamos erguendo contra ela. A confiança básica assim como a nossa extraordinária capacidade criativa de adaptação e de esperança, foram postas à prova máxima.
O trauma coletivo acordou o pesadelo de traumas individuais. E o sofrimento foi escoando para a queixa, para o sintoma mais ou menos silencioso.
Mas desta esmagadora incerteza , do retraimento e apesar do confinamento do corpo foi fluindo a certeza de que podemos sentir. Como uma saída possível, simples e complexa. Surgiu um outro tempo para nomear o que se sente e dar-lhe um significado protetor da vida. Daí nasce pensamento. Percebemos que nos podemos fortalecer assim. O medo e a “coisa racional” terão que aproveitar aqui um lugar de transformação, fazendo a emergência e o desconfinamento de soluções que precisamos, com cuidado e atenção, todos os dias de encontrar.

Os versos de António Machado (1901) “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar” alertam-nos para os perigos das predeterminações.
As posições unívocas, rígidas e polarizadas entram em contradição com o humano (e, consequentemente, com a psicanálise) na sua essência, impedindo a tolerância à dúvida, ao mistério e à incerteza que nos tomam neste momento.

No caminho para uma “nova normalidade” que se (re)conquistem algumas das mais humanas caraterísticas, como a solidariedade, a bondade ou a criatividade. Caraterísticas que apenas podem ser adquiridas na relação verdadeira com o outro e que, uma vez desenvolvidas, possibilitarão tolerar as incertezas do percurso.

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