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Transformar é viver

Sob a égide de Thanatos, nem os novos ventiladores parecem permitir um sopro de vida.

A desinformação permanece, como que anestesiando tudo e todos, impedindo um pensar objetivo e lúcido sobre o medo que subjaz à vontade de não entender.

As várias contradições, em termos de imposições legais, parecem submeter-se a leis económicas, e não de saúde e proteção da vida. Será?

Chegados ao fim-de-semana, que o sol nos ilumine e aqueça a esperança e a capacidade de pensar sobre as coisas. Urge voltar a sentir a vida, retomar o prazer e a força de estar vivo.

Neste confinamento a que de repente todos fomos submetidos, o livro é o grande companheiro. Como refere Kenneth White em "Le rôdeur des confins" (2006):
“Bem, alguém que ouse declarar que os livros tiveram o seu tempo é um grande imbecil, ou até mesmo um demagogo, ou um vendedor de computadores. O livro continua sendo o lugar da concentração máxima e da beleza deslumbrante.”

Colocar no outro, no exterior, as nossas caraterísticas menos boas (com as quais não queremos sequer contactar) é um mecanismo de defesa arcaico e, muitas vezes, maligno. Esse recurso, contudo, dificulta o amadurecimento psíquico, a possibilidade de desenvolvimento de empatia e, como no caso desta pandemia, fomenta o surgimento de teorias xenófobas e a repetição de padrões comportamentais e relacionais patológicos.
Após um período de confinamento em que, apesar de tudo, nos sentíamos mais protegidos (porque “fechados” e entre “iguais”), a retoma das rotinas pode colocar em marcha esses mecanismos de defesa geradores de desconfianças persecutórias.
Pelo contrário, será no reconhecimento da nossa fragilidade individual, e na imprescindível reconciliação com ela, que saudavelmente poderemos encontrar novas e criativas soluções para lidar com estes momentos de crise e, saudavelmente, projetarmo-nos no futuro.

O homem, ao encontrar-se face a uma situação pandémica, encontra-se também com as suas velhas vulnerabilidades. Estas andam agora de mão dada com um risco e perigos reais e concretos. Assim, uma das formas desta vulnerabilidade se manifestar é pela procura ansiosa de uma razão, de uma justificação externas como, por exemplo, teorias da conspiração mais ou menos sofisticadas. Como se, tornando a preocupação localizável e identificável, esta se tornasse mais facilmente dominável e gerível. Portanto, menos angustiante. Uma outra, muitas vezes complementar, expressa-se pela busca de curas rápidas, de preferência indolores e quase mágicas.
Numa época em que o acesso à informação pode ser tão fácil e democrático, quanto não mediado e filtrado, é especialmente importante não deixar que a dispersão de informação mate o conhecimento e a capacidade crítica de a pensar e refletir.

Sob o signo do otimismo (os números da DGS mantêm-se animadores), o poder político incentiva e reforça o gradual processo de desconfinamento. António Costa, o primeiro-ministro, toma café num espaço público e almoça num restaurante. As creches e escolas reabrem, os restaurantes recebem clientes… os espaços revitalizam-se!

Dir-se-ia que a Vida retoma o seu curso, depois de uma longa hibernação coletiva, uma hibernação ditada pela prudência e pelo medo.

As autoridades apelam à prudência, sublinhando a necessidade de mantermos o distanciamento físico. Paralelamente, convidam-nos a retomarmos a vida que ficara suspensa.

Apesar da evolução positiva, não se devem aligeirar os cuidados, independentemente de a situação epidemiológica do país ser mais favorável.

Reanimamo-nos, num compromisso entre o apelo à vida e os cuidados omnipresentes. Vamos vingando, ainda distantes fisicamente e vencendo a inibição inclemente de outrora…

Retoma-se o prazer, regressamos à vida!

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