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Transformar é viver

Para Todas as Crianças…
Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madrugou.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca bastou.
Fernando Pessoa. Olha-me rindo uma criança
Era uma vez uma mãe que todas as noites inventava uma história antes de os seus filhos adormecerem... Criava personagens, situações e locais que fascinavam e embalavam os sonhos dos meninos. Falava-lhes de duendes, gnomos, florzinhas, passarinhos, fadas, bruxas, castelos e aventuras... Quando o tapete mágico dos sonhos começava a deslizar suavemente para o sono, dava a cada um o beijinho de boa-noite. De manhã o acordar era curioso... Cada criança narrava uma diferente continuação da história...
Nestes tempos conturbados que vivemos, é importante conseguirmos dar-nos disponibilidade interna para através do mundo infantil viajarmos pelos trilhos do imaginário, pelo palco interno das nossas danças, ainda que contraditórias, numa abertura de possíveis, num lugar de encontro intemporal com a criança que guardamos dentro de cada um de nós.
Permitirmo-nos (re)visitar os espaços do Sonho, enquanto espaços de Liberdade, onde a ameaça de infecção e contaminação de um vírus fica esbatida pelo sorriso de uma Criança. E também por e para elas não só hoje mas para que todos os dias sejam de Todas as Crianças, fortalecendo cadeias de transmissão de um futuro com direitos e esperança. Para isso temos de lutar todos os dias para erradicar a doença, a desproteção e a violência.
Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1919-1930). Lisboa: ed. Ática, 1956 (imp. 1990). - 171.

"De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro". (1)
Não será por acaso que as palavras de Fernando Sabino, escritor brasileiro, ecoam quando de uma forma tão trágica e violenta é assassinado mais um afro-americano - George Floyd.
Vivemos atualmente uma calamidade provocada por um vírus que pode matar, que pode causar dificuldades respiratórias… Mas existe uma outra pandemia muito mais violenta, que psicopaticamente se exerce nestes dois países, dramaticamente liderados por Bolsonaro e Trump, numa escalada impressionante de violência, sofrimento, dor e morte. Para eles não há esperança de vacina, porque não há esperança de mudança, quando se perdeu a empatia, o respeito e dignidade que nos torna Seres Humanos.
(1) Fernando Sabino 1923 (1ªed.) O Encontro Marcado. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira

O número de infetados com Covid-19 que, nos últimos dias, tem surgido na região de Lisboa e Vale do Tejo faz-nos pensar como o vírus expõe e amplifica fragilidades e injustiças sociais. E faz-nos pensar também no que é a solidariedade.
A verdadeira solidariedade exige um sentimento de humildade realista, o reconhecimento das próprias limitações – a solidão, a incompletude, a necessidade do outro, a impotência, a fragilidade, a finitude... – que se devem combinar com a capacidade de apreender a semelhança fundamental entre nós e os outros. Tal como nós, eles, os outros, são vulneráveis, conhecem o medo e aspiram a serem reconhecidos e a terem voz. Diz o filósofo Emmanuel Levinas que “desde que o outro me olha, sou por ele responsável, sem mesmo ter que assumir responsabilidades a seu respeito; a sua responsabilidade incumbe-me” e “diante do rosto, eu não fico simplesmente a contemplá-lo, respondo-lhe”. A ligação que constitui a nossa humanidade compartilhada incita-nos à preocupação com os outros, à compaixão universal e a um pensar e agir responsáveis.
Emmanuel Levinas 1961/2007 "Totalidade e Infinito". Lisboa: Ed. 70

Preservemo-nos
Ao deitar, as crianças interrogam-se sobre a existência de monstros. Há pais que, para as protegerem, ensinam-nas a rezar; outros há que vão com elas direitos aos monstros, para os derrotar; e ainda há uns outros que as deixam, sós, a enfrentá-los, porque "o mundo não é para os fracos". Nas pandemias também é, mais ou menos, assim.
Para combater estes novos monstros, entre as estratégias de controlo e evitamento relacional (como formas de prevenir o contágio) e o prazer dos velhos hábitos conviviais, teremos de encontrar um compromisso… Urge criar uma espécie de preservativo comunitário que, sem impedir o acesso ao prazer, nos proteja de infeções.
Controlo e Prazer têm implícita a ideia de Responsabilidade, sempre E agora!
Não só devemos seguir as indicações das autoridades sanitárias, como temos o direito de aligeirar a longa hibernação e aceder a um gozo… um gozo preservado e controlado 😉

Gerard Castelo Lopes (1925-2011), um dos maiores fotógrafos portugueses, um dia interrogou-se: “Pode-se ensinar fotografia?”
A sua resposta foi que não. Podia ensinar-se toda a técnica de fotografar mas “o que não se ensina (o que não quer dizer que não se aprenda) é a ver”.
Se substituirmos a ideia de “ver” por “viver”, poderíamos dizer que em relação a esta época tão excepcional de pandemia, não é possível ensinar como vivê-la emocionalmente (o que não quer dizer que não se aprenda).
Mas podemos todos, como comunidade, através de uma postura humanista, solidária e informada, contribuir para manter a esperança que estas difíceis experiências emocionais se possam atenuar…
(Gerard Castelo Lopes, 2004. “Reflexões sobre fotografia. Eu, a Fotografia, os Outros.” Assírio & Alvim)

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