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Transformar é viver

A responsabilização dos cidadãos pelo cumprimento das medidas preconizadas pela DGS, antes mesmo de passar pela promoção da literacia em saúde (e em saúde mental, seguramente), deverá passar pela coerência das mensagens transmitidas e pela sua aplicação, transversalmente, às diferentes estruturas sociais.


A distância de segurança num avião ou num evento de cariz político não é, seguramente, cientificamente diferente da distância de segurança no local de trabalho ou no restaurante. A responsabilização implica, por isso, mensagens claras, concisas e, sobretudo, verdadeiras.
Se a pandemia, e a ameaça a ela inerente, já é suficientemente perturbadora e geradora de dificuldades na nomeação das emoções e dos sentimentos, a sobreposição de mensagens externas contraditórias (e, por vezes, falsas) irá fomentar uma crescente intranquilidade que só pode ser combatida com um pensamento coerente, que acompanhe e contenha.
Desconfinar é, necessariamente e sobretudo, responsabilizar. Todos!

Nas últimas décadas, temos vindo a assistir à promoção crescente de sociedades marcadas pela individualização da relação com o mundo. Num modelo particularmente virado para a satisfação imediata, para a distração e hiperconsumo, há quem receie que a história contemporânea seja dominada pelo não pensamento e infantilismo generalizados.

Teme-se que as pessoas não reflictam e apenas recolham e acumulem dados descontextualizados, sem esforço de interpretação.
No entanto, também é verdade o que nos diz Gilles Lipovetsky: “o apetite de compreender não morreu! A educação, as ciências, as técnicas e a informação relançam incessantemente a capacidade de questionar, recriando a necessidade de apreender o sentido daquilo que vivemos” (2016, p 322).
E esta é uma das ferramentas mais preciosas do homem: a possibilidade de se questionar, de tomar uma certa distância relativamente às suas certezas aparentemente inabaláveis, e exercer a sua liberdade de pensar.

Quando o medo tem de ser domesticado surge muitas vezes o desejo do aparecimento de um herói, do super, que confronta o perigo e luta pela vida e pelo futuro.
Funcionamos em dicotomias: bom/mau, fraco/forte, amor/ódio, distante/perto, e tantos outros.
Nesta pandemia a sobrevivência está na saúde e em ter pão na mesa. Não há opostos, a não ser os ilusórios: a luta contra o vírus só é possível com alimentos concretos.
Intuindo isso, os heróis vêm em nosso socorro para lutar contra os super vilões.
Mas o homem comum sabe, que é a sua coragem informada que o vai retirando do pesadelo.
O pesadelo é a rutura com a ilusão da imortalidade, tão necessária para podermos viver e que agora tem de ser recuperada.

Para refletir em tempos de confinamento, um trecho de Gabriel Garcia Marques em “Amor em tempos de cólera”:


Dentro de um barco que não podia atracar, o rapaz estava angustiado com a quarentena e o capitão relatou-lhe uma quarentena que viveu uns anos atrás dentro de um barco que não podia atracar na costa devido à peste.


“E o rapaz pergunta:


Privaram-vos da primavera, então?


- Sim, naquele ano privaram-me da primavera e de muitas coisas mais… Mas eu, mesmo assim, floresci, levei a primavera dentro de mim e nunca mais ninguém ma tirou de mim.”

Mais importante do que a Pandemia do vírus é a “Pandemia” do Afeto, e é imersos nela que homenageamos os 97 anos de Eduardo Lourenço, no dia do seu aniversário.


As suas palavras ecoam dentro de nós como bálsamo e inspiração para os tempos que atravessamos...


“A mais alta ação é ser criador de qualquer coisa;


essa é a nossa utopia”.


“Mais importante que o destino é a Viagem”

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