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Transformar é viver

Desde 9 de maio, início deste projeto, que os psicanalistas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise se envolveram na tarefa de criar pequenos textos, nos quais a vivência subjetiva do momento ganhasse forma em palavras, em pequenos textos de variados ritmos, recorrendo frequentemente à arte expressa por escritores e poetas. Falaram sobre o medo, o tempo suspenso, a morte, a angústia, a esperança, a criatividade, o amor, a solidariedade e o cansaço. Falaram também da violência humana e da injustiça, do sentimento de impotência e de ilusão.
Dia a dia, criaram textos que falavam de si e dos outros, numa procura de sentido e de sentires. Tentaram dar nome à inquietante estranheza que brutalmente nos invadia.
O imenso testemunho de que todo este projeto fala perdurará para além deste momento marcante da nossa história mundial, nacional e pessoal. Para o conjunto dos membros da nossa Sociedade Portuguesa de Psicanálise este tem sido um tempo e um processo de aprendizagem, de coesão, de partilha, de exposição e de transformação, no encontro com o outro, da relação existente e imaginada com o possível leitor.
Este foi um dos projetos em que nos envolvemos por acreditarmos que a Psicanálise pode e deve participar mais activamente na comunidade, nomeadamente, em momentos em que o Ser Humano é obrigado a sofrer e a realizar alterações tão profundas na sua vida.
Falámos de pesadelos e de histórias tranquilizadoras, da criatividade e generosidade humanas e muito, mas muito, do desejo de saber e de participarmos na construção do pensamento e do conhecimento. E não há conhecimento sem verdade, por mais dolorosa que ela seja. Desistir das falsas ilusões é conhecer a realidade e poder criar e lutar por sonhos, ainda que por vezes estes possam parecer utopias.
“Transformar é Viver” significa para nós que Viver é sempre Transformar, mesmo quando não temos consciência de o estarmos a fazer.
Até sempre!

Talvez…
Talvez tentemos recalcar a vivência de ameaçados e de ameaçadores.
Talvez queiramos voltar a estar numa atitude distraída e prazerosa desfrutando o fluir do tempo.
Talvez nos apeteça ir de férias sem ruídos, sem compromissos, sem máscaras internas ou externas.
Talvez nos apeteça negar a realidade e dar asas aquele abraço desejado e mais espaço à especificidade infinita que há em cada um de nós…
Talvez nos apeteça que o enigmático do estranho não nos invada tão inquietante e frequentemente.
Talvez nos apetecesse… Mas não escamotear os nossos medos é de alguma forma re-significa-los, encontrar-lhes novos significados e alternativas.
Que as férias nos permitam novos e fantásticos voos, ainda que mantendo-nos suficientemente atentos para que estes não se venham a tornar tenebrosos… Que a tela seja multicolor e contentora e não cinzenta e fragmentada.
Boas Férias!

“Isto não é o fim. Não é, sequer, o princípio do fim. Mas é, talvez, o fim do princípio.”
(Frase proferida por Winston Churchill, num discurso de 1942, após as primeiras vitórias dos Aliados sobre o exército nazi).
Mais do que fixar a discutível adequação da metáfora da guerra ao momento presente e à pandemia que agora vivemos, a frase de Winston Churchill, e o discurso em que ela se insere, remete-nos para algo extremamente atual e de fulcral importância: a necessidade de enfrentar a pandemia sem o desânimo de quem está já cansado e frustrado desta prolongada situação (e do que ainda, provavelmente, está para vir), mas também sem a tranquilidade excessiva de quem lê a mais recente redução dos números de novos casos diários como uma conquista irreversível.
Reconheçamos o caminho já percorrido e louvemos os esforços por todos desenvolvidos, mas permaneçamos alerta e ativos na prevenção e na promoção de boas práticas que permitam continuar a projetar um futuro melhor.

A resiliência humana surpreende pela criatividade inesperada de tolerar desilusões, de contornar o desfazer de certezas, e de voltar a encontrar espaço afetivo, capaz de organizar esperança que oriente e dê sentido ao presente.
Por vezes, invertemos e distorcemos a realidade na sua forma mais brutal, convertendo a ameaça e o medo circundante, numa atitude de banalização e indiferença, que apenas revela a impotência e a fragilidade. Neste instável campo de incertezas parece compreensível amplificar desproporcionalmente o efeito das pequenas descobertas que vamos partilhando, atribuindo heroísmos e genialidade a eventuais soluções, pessoas ou instituições. Por momentos, sorrimos mais tranquilos, abafando o confronto com a fragilidade humana, para assim prosseguir.

As esplanadas não se confinam, antes se expandem
Tendencialmente, atropelamos o “fora de nós”, impondo-lhe o que queremos pensar e sentir. Nestes últimos meses ocorreu o inverso: fomos atropelados pela realidade de um “estranho ameaçador”. Tivemos que lidar com mudanças abruptas, impostas pelo meio.
Na pandemia, é o medo “quem mais ordena”, tornando os problemas, aparentemente, mais infinitos e insuperáveis. Assim, procuramos soluções omnipotentes que nos atraem e nos oferecem a sensação de nos proteger. “Vamos ficar todos bem!”. Ou, então, deambulamos pelo cataclismo que advém do mergulhar numa amargura pessimista.
A arte está em integrar estas duas posições clivadas, em integrar este desamparo trazido pela insegurança e os raios de esperança e objetividade que nos vão, timidamente, iluminando.
A ‘chave’ está em suplantar os propalados destinos destrutivos, como a crise de negação maníaca, fazendo prevalecer percursos criativos que, por exemplo, têm feito invadir o nosso espaço público de esplanadas e jardins que se enchem de piqueniques e explosões de alegria de quem pode, finalmente, “com-viver”, com as devidas precauções.
De repente, o coronavírus relembrou-nos que partilhamos o mesmo planeta, que somos seres em interação constante, e que o egocentrismo estéril que nos leva a “ter que aprender” a ser empático não é matéria para a academia, mas sim para a Vida: “Vamos todos fazer por ficar bem!"
Talvez o outono venha acompanhado da tranquila sabedoria, da esperança consistente e, quiçá, trar-nos-á a certeza de que saberemos lidar com o que a vida nos vai apresentando…

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