Sem grandes percalços, destaque a casos concretos

Na comunicação oficial do dia, e sem grandes percalços a registar no arranque da segunda fase de desconfinamento, muita da informação foi focada em casos específicos ou grupos de população. A resposta mais ansiada foi muito clara mas inconclusiva e tem a ver com o expectável aquecimento das temperaturas médias nas próximas semanas: para já há que aguardar para saber o comportamento do novo coronavírus ao calor.

Questão recorrente tem a ver com possíveis medicamentos e a sua eficácia. Depois de Donald Trump vir a público, mais uma vez, fazer a apologia da hidroxicloroquina e afirmar que a está a tomar há 10 dias, Graça Freitas voltou a repetir de forma clara aquilo que todos (menos Trump e Jair Bolsonaro) sabem:  o uso da hidroxicloroquina e os estudos da sua eficácia no tratamento da Covid-19 são inconclusivos. A DGS indica que o medicamento, tais como quaisquer outros, tem indicações e contraindicações e a decisão da sua utilização será sempre da EMA (Agência Europeia do Medicamento).

Vale a pena acrescentar à comunicação oficial que os estudos científicos que existem sobre hidroxicloroquina e Covid-19 concluem que o seu uso é mais perigoso que útil e que não há nenhuma prova de que o medicamento tenha sequer ajudado alguém a recuperar da doença. Donald Trump é acionista de uma das farmacêuticas que produzem o medicamento, e já morreram pessoas nos EUA e no Brasil por tomarem o medicamento sem prescrição médica.

No que toca ao primeiro balanço da segunda fase de desconfinamento, foram dadas apenas informações gerais e nem sempre muito claras: o faseamento pressupõe acompanhar a influência do desconfinamento na subida ou não da curva epidémica, e neste âmbito a mensagem atual que se pretende passar é de bom senso e equilíbrio mantendo o sentido de responsabilidade por parte dos cidadãos através das boas práticas. Esta última parte é demasiado abstrata e não ajuda os cidadãos a terem os melhores comportamentos, pelo que deveria ser mais específica em futuras comunicações, até porque a campanha “Fique em Casa” continua a ser difundida nos meios de comunicação.

Já tinha sido anunciada mas só agora foi publicada nova orientação sobre recém-nascidos, que veio clarificar diferentes questões, entre as quais ser possível amamentar (usando máscara), e permitirá aos profissionais de saúde e progenitores seguirem o recém-nascido, filho de mãe Covid-19 suspeita ou positiva, em segurança.

Como sempre, aproveitou-se mais uma efeméride para destacar o papel dos profissionais de saúde durante a pandemia. Saudação especial e agradecimento ao trabalho dos médicos de família no dia Mundial do Médico de Família e ao seu papel no combate à pandemia e acompanhamento de doentes.

O caso concreto de 2 profissionais infetados no Hospital de Santa Maria foi também abordado com dados e de forma clara. O hospital está a acompanhar o caso dos 2 profissionais de saúde que testaram Covid-19 positivo, foram realizados testes aos profissionais e aos utentes e todos – os que testaram positivo ou os que aguardam testes – estão bem neste momento. Ainda sobre a política de testes, mantém-se a orientação técnica 13, que não descura avaliações específicas em situações concretas. A comunicação acrescenta que toda a estratégia de testes está a ser revista no sentido de a adaptar à atividade epidémica do país.

Outro caso específico é o da Direção-geral de Reinserção e Serviços Prisionais, que tem uma estratégia específica no âmbito do Covid-19. Assim, os 2 reclusos que após voltarem de precária foram testados e deram positivo para Covid-19, estão em quarentena no hospital-prisão de São João de Deus. De há 2 semanas até ao momento 1200 colaboradores dos serviços prisionais foram testados. Espera-se que em junho, com as condições devidas de segurança e de acordo com as diretrizes da DGS, se possam retomar visitas às prisões.

Por fim, ainda sobre as máscaras que podem ter perdido certificação e estão a caminho de Portugal, foi garantido que não haverá distribuição sem ser feita avaliação da documentação pelas entidades competentes e sem que estejam reunidas condições de segurança.

Há sempre uma “cura” milagrosa

Como já é habitual, curas milagrosas estão entre a desinformação mais propagada. Desta vez é a ivermectina o medicamento que alegadamente cura a Covid-19, mas essa informação é incorreta, pois ainda não existem dados para comprovar a eficácia do medicamento. O desparasitante, utilizado em Portugal apenas em medicina veterinária, foi utilizado para eliminar o coronavírus em laboratório numa cultura celular. Decorrem mais estudos que avaliam a sua eficácia em seres humanos, dos quais ainda não se têm resultados conclusivos.

A dúvida se continua a haver mercados de animais exóticos e selvagens na China é também recorrente, mas igualmente impreciso. A China proibiu a venda de animais exóticos para consumo alimentar, mas continua a ser legal a sua venda para outros propósitos, como a medicina tradicional, e os mercados já reabriram, sem venderem no entanto animais selvagens. Paralelamente, o governo Chinês anunciou que pretende criar um programa de apoio financeiro que promova os produtores deste tipo de animais e encontrarem outras fontes de rendimento.

Há também quem tenha dúvidas sobre se existem mais de 500 crianças infetadas com Covid-19 em Portugal? Neste caso é verdade: o Polígrafo analisou os dados e confirma que existem mais de 500 crianças com menos de 10 anos infetadas com Covid-19 em Portugal. Mas, segundo o boletim epidemiológico da DGS, não existem até ao momento casos de óbito para a faixa etária até aos 19 anos.

Nas últimas 24 horas, as páginas de Facebook em Portugal publicaram 1617 conteúdos contendo referências à epidemia de Covid-19, que geraram quase 169 mil interações (‘likes’, comentários e partilhas). O economista Camilo Lourenço referiu-se à doença num ‘live’ na sua página de Facebook e esse post tornou-se no mais popular do dia, com mais de 12 mil interações. O jornal Correio da Manhã também esteve em destaque, com uma notícia sobre um medicamento, desenvolvido por uma farmacêutica portuguesa, alegadamente capaz de matar o coronavírus em 48 horas (teve 7407 interações). O outro tema em destaque (várias vezes referido) é o que se passa nas escolas em França, que após reabrir (como em Portugal) registam um incremento do número de casos entre os mais jovens.

Nos grupos de Facebook portugueses dedicados ao coronavírus foram publicados, nas últimas 24 horas, 249 conteúdos, que geraram 5600 interações (‘likes’, comentários e partilhas). O ressurgimento de casos nas escolas de França uma semana depois da reabertura parece preocupar os membros destes grupos, assim como a preocupação com eventuais aglomerados em Portugal na sequência do desconfinamento (é dado um exemplo para a Baixa do Porto).

No Twitter, ao longo do dia de ontem foram publicados 2408 tweets e 1779 retweets acerca do coronavírus. Como habitualmente, o pico do dia coincidiu com a conferência de imprensa da Direção-Geral de Saúde. Na lista das contas mais influentes do dia de ontem continuam a aparecer a DGS, mais uma vez por causa das informações provenientes da conferência de imprensa diária, mas também o primeiro-ministro António Costa e a SIC Notícias. Entre os utilizadores que postaram mais sobre a Covid-19, seja em tweets ou retweets, continua a pontificar @marciojmsilva, seguido do @JornalDestak e da @SICNoticias.

Outra vez a hidroxicloroquina

Podemos agrupar em dois focos as pesquisas realizadas esta segunda-feira, relacionadas com a Covid-19: um mais político e o outro relacionado com saúde.

Pelo lado da Saúde, no top 20 de termos mais pesquisados encontramos OMS (Organização Mundial de Saúde) e hidroxicloroquina. As pesquisas pela primeira foram possivelmente motivadas pela vinda a lume do último relatório da OMS que mencionava o facto de não haver certezas sobre se o coronavírus se transmite ou não através de objetos e superfícies. A pesquisa por hidroxicloroquina parece surgir pela notícia de que, supostamente, Donald Trump está a tomar o medicamento como prevenção da Covid-19.

Relacionadas com política, a entrevista à ministra do Estado e da Presidência, provocou a pesquisa por Mariana Vieira da Silva, e volta às pesquisas o Programa Adaptar, de apoio às PME e microempresas para ajuda na adaptação às novas regras de funcionamento resultantes da resposta à pandemia.

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