Mais desconfinamento, novas preocupações

No dia que marcou o início da segunda fase de desconfinamento, com reabertura de creches, escolas, restauração e lares, estes foram naturalmente os principais focos de comunicação oficial e também das expressões online dos portugueses.

Para dar o exemplo, António Costa tomou café na pastelaria Califa, em S. Domingos de Benfica, e foi almoçar com o Presidente da Assembleia da República ao restaurante Alfaia, no Bairro alto, ambos em Lisboa. Esta foi uma forma política de dar um sinal de incentivo aos portugueses para irem comer fora e, assim, apoiar os estabelecimentos que reabriram ontem, em mais uma fase de desconfinamento.

Um tema a provocar controvérsia, porque vem pôr em causa uma das poucas mensagens que foi transmitida de forma global e aceite, tem a ver com a transmissão do coronavírus através de superfícies. Na comunicação oficial do dia foi destacado que apesar do estudo agora referido pela OMS, cujos dados apontam que parece ser mais difícil a transmissão do vírus de superfícies para o trato respiratório, este não é um estudo conclusivo. Recomendações de limpeza e desinfeção mantêm-se, assim como de higienização pessoal.

Como tem sido uma constante, houve um reforço da ideia de que a autorresponsabilização, através do cumprimento das regras da DGS, é o caminho a seguir. A DGS reforça que não se devem verificar ajuntamentos e concentrações, à exceção de coabitantes, com ou sem máscara (no âmbito das aglomerações verificadas do fim de semana), recomendando que se evitem locais onde tais ajuntamentos se verifiquem. Também deverá continuar a manter-se o distanciamento físico, visto que é uma das principais medidas para combater o vírus.

Em termos mais gerais, foi clara a indicação de que as decisões tomadas têm sido em função da evolução da doença e que se irá ajustando estratégias e medidas em função do dinamismo do surto e das medidas de desconfinamento progressivo. É positivo o registo do maior aumento dos casos recuperados (em 1794), pois as instituições começaram a reportar mais e a convicção de que no futuro será possível caracterizar os recuperados através de dados. Apesar da evolução positiva, não se devem aligeirar medidas, independentemente de a situação epistemológica do local do país ser mais favorável.

Foi comunicado que chegaram à embaixada de Portugal em Beijing os ventiladores encomendados em março para aumentar a capacidade de ventilação nas unidades de cuidados intensivos. Para tentar fechar um dos assuntos polémicos dos últimos dias (as máscaras compradas que não têm certificação) foi chamado a falar o presidente do Infarmed. Existe um conjunto de entidades, Infarmed, IPAC, IPQ, ASAE, e alfândegas no caso de equipamento importado. Todas estão envolvidas no processo de certificação e conformidade (funcionamento e segurança) no equipamento de proteção individual, entre os quais se encontram as máscaras. Tais entidades permitem assegurar que o produto que chega ao mercado está conforme. Caso assim não seja, o produto é retido e em caso de já estar a ser comercializado é retirado, algo que ainda não aconteceu. Mais uma vez a mensagem foi confusa, cheia de dados mas pouco assertiva, pelo que para encerrar a questão a comunicação deveria ser sintetizada.

Entre os medos e a indignação

Os portugueses continuam a ser afetados pela desinformação e a criar dúvidas sem fundamento, mas ao mesmo tempo as mudanças da informação supostamente fidedigna e já interiorizada gera indignação nas redes sociais.

Andar de transportes públicos não implica ser infetado, mas com a progressiva abertura, o número de utilizadores de transportes públicos vai aumentar e, apesar das medidas de limpeza e desinfeção anunciadas e do uso obrigatório de máscara, existe sempre um risco. O cumprimento estrito das normas de segurança, uso de máscara e cuidados de lavagem das mãos reduzem esse risco de forma significativa e a Organização Mundial de Saúde pede àqueles que tenham alternativas para não usarem o transporte público.

A lavagem da roupa a 90 graus por causa do coronavírus e, na maioria dos casos, um exagero. As recomendações da DGS são que apenas em caso de contacto direto com doentes com Covid-19, como no caso dos profissionais de saúde, é recomendada a lavagem das roupas a altas temperaturas. Embora ainda não existam muitos dados sobre a transmissão do vírus através da roupa, nem dados conclusivos sobre a sua transmissão através de superfícies, sabe-se que o sabão, como no detergente da roupa, ajuda a dissolver o coronavírus e que é mais eficaz com água quente.

A potencial influência da alimentação da capacidade imunológica ou de ficar infetado é uma das categorias de desinformação mais constante. Mal chegou o tempo quente e já os gelados são questionados. Mas tranquilize-se: não existe qualquer prova científica de que o consumo de alimentos frios tenha qualquer impacto na transmissão do coronavírus.

Nas últimas 24 horas foram publicados, nas páginas de Facebook portuguesas, um total de 1580 conteúdos referentes ao coronavírus, com 132 mil interações geradas. Os posts com mais interações são ambos de meios de comunicação social e abordam o tema de, afinal, o vírus poder não ser transmissível a partir das superfícies contaminadas. Uma hipótese aberta pela Organização Mundial de Saúde, mas que pelos vistos deixou os portugueses algo confundidos nas redes sociais. As praias cheias num fim de semana de sol também são referidas em mais do que uma publicação, assim como o caso dramático de uma menina de cinco anos que venceu o coronavírus, mas agora luta pela vida com a doença de Kawasaki.

Nos grupos de Facebook portugueses sobre a Covid-19 sob monitorização, a nova fase de desconfinamento é objeto de alguma preocupação (as duas publicações com mais interações são sobre o assunto), mas também se nota uma preocupação com a mensagem contraditória de as superfícies poderem, afinal, não ser transmissoras da doença. Alguns utilizadores dos grupos Covid-19 mostram-se surpreendidos – e até, nalguns casos, ludibriados – perante essa possibilidade.
No Twitter foram feitos durante o dia de ontem 1473 tweets e 2100 retweets sobre o coronavírus, sendo que o pico diário coincidiu de novo, como é habitual, com a conferência de imprensa diária de Direção-Geral da Saúde. Entre as contas mais partilhadas no dia de ontem estão a DGS, SIC Notícias e Expresso, além de utilizadores individuais. Quanto àqueles que mais tweetaram e retweetaram sobre o tema, o destaque continua a ser @marciojmsilva, que fez no total 98 publicações sobre o coronavírus no dia de ontem, seguido de @LigaAoFilipe, com 76 tweets e retweets. A SIC Notícias fez 55 e a Agência Lusa 51.

Mais Sol, menos pesquisas

Num domingo de sol, com a pesquisa sobre praias a aparecer no top dos dias anteriores, não houve pesquisas significativas relacionadas com a Covid-19, para além de Marcelo Rebelo de Sousa. O interesse pelo Presidente da República parece estar ligado ao facto de ter sido fotografado numa fila de supermercado e às suas declarações e visita à Ericeira.

O top dos termos mais pesquisados apresenta-se menor que em dias anteriores, à semelhança do que acontecia em muitos domingos e fins de semana, em geral, no pré-Covid, o que pode indiciar que os portugueses podem ter afinal saído mais, tendo menos tempo dedicado às pesquisas.

Já no dia 18 parece estar a surgir uma tendência de pesquisa do termo OMS, provocada pela questão emergente sobre a admissão, por parte da Organização Mundial de Saúde (OMS), de que não há provas que permitam concluir que a infeção por novo coronavírus poderá acontecer através de superfícies contaminadas, como se tinha afirmado antes. No entanto, a OMS continua a recomendar que se desinfetem as superfícies.

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