Desconfinamento sim, mas com autovigilância

Visto que os números oficiais de infetados, internados e mortos se mantêm estáveis, a mensagem oficial da DGS focou-se nos sinais encorajadores face às medidas de desconfinamento. No entanto volta a reforçar-se a ideia de ser imprescindível manter a monitorização sistemática da situação e o alerta de que o retomar de atividades vai depender do comportamento cívico e da autovigilância, mesmo se não podemos deixar que o medo impeça a retoma.

Como são muitas as dúvidas sobre os tempos futuros, a comunicação oficial deixa claro que a normalidade total só será alcançada com a cura ou vacina, daí a importância de cumprir regras. Mas é também reforçado que o confinamento também tem efeitos adversos, do ponto de vista psicológico ou mesmo em casos de violência doméstica e, portanto, o desconfinamento gradual é importante para continuar a proteger as pessoas.

Quando se está prestes a reabrir escolas, creches e mais lojas, a testagem continua a ser uma prioridade, nomeadamente na realização dos rastreios em creches e lares, de forma a garantir segurança na abertura. Voltou a insistir-se que as visitas aos lares têm regras específicas, como o agendamento prévio ou registo de visitantes. Quanto às creches, foi reafirmado que têm condições e vão abrir, com os seus funcionários testados. Por isso foi dada uma palavra de tranquilidade aos pais: o SNS e os serviços de pediatria têm capacidade para tratar situações mais graves que possam surgir, mesmo se as crianças têm recuperado bem (não há em Portugal nenhum caso de morte em cidadãos com menos de 20 anos).

Pelo segundo dia consecutivo, a Síndrome de Kawasaki ou síndrome inflamatório multissistémico foi abordado, com o reforço da ideia de que Portugal tem estado a fazer recolha nacional e internacional, contribuindo para o conhecimento da doença.

O conjunto de atividades no contexto da prática balnear foi mais uma vez abordado, reforçando que cada cidadão terá de cumprir o conjunto de normas gerais da DGS, nomeadamente o distanciamento social, mas também as específicas para a ida à praia.

À medida que a situação estabiliza em termos práticos, começam a vir ao de cima as discussões políticas. A Ordem dos Enfermeiros veio contradizer as informações oficiais da véspera, e por isso a Ministra da Saúde indicou que serão avaliadas diferenças entre as informações díspares do Secretário de Estado e da Ordem dos Enfermeiros sobre os profissionais de saúde em contacto com doentes Covid-19 positivo terem sido testados. A Ministra afirmou que não há motivo para não acreditar que informações genéricas não tenham sido cumpridas, mas nada foi esclarecido, pelo que o ministério e a DGS deveriam evitar este tipo de mensagem dúbia em futuras comunicações.

Não é inédito, mas perante as dúvidas tantas vezes expressas nas redes sociais e nas pesquisas online, foi confirmado de forma oficial que haverá um número de casos recuperados superior ao reportado diariamente (correspondente àqueles que foram acompanhados em domicílio). Ficou a promessa de que esses dados serão atualizados e revistos em alta nas próximas semanas.

Pais preocupados devido à desinformação

Mais uma vez as curas milagrosas e os medos dominam a desinformação nas redes sociais. A síndrome de Kawasaki volta a ser uma fonte de desinformação, alertando sem motivo todos os pais e mães. É verdade que existem alguns casos documentados de crianças infetadas com Covid-19 (e outras sem) que manifestam sintomas semelhantes aos da síndrome de Kawasaki, que envolve inchaço de vasos sanguíneos no coração. São, no entanto, casos muito pontuais e sem relevância estatística que permita fazer uma correlação entre as duas doenças.

Quanto às curas, nem águas nem cebolas são a solução para a Covid-19. Nenhuma água termal, mesmo com PH alcalino, cura a Covid-19. É totalmente incorreto afirmar isto, pois não existem até ao momento dados clínicos que liguem o consumo de água ou o nível de PH do que ingerimos à cura da Covid-19. O mesmo se aplica à alegação incorreta de que as cebolas curam a Covid-19. Não existe nenhuma indicação científica de que cortar cebolas, colocá-las pela casa, inalar os vapores de cebola ou qualquer outro manuseamento com cebolas tenha algum efeito positivo no combate à Covid-19.

Quanto à atividade dos portugueses nas redes sociais, nas últimas 24 horas houve 1676 publicações no Facebook em Portugal sobre a Covid-19, que geraram um total de quase 107 mil interações (‘likes’, comentários e partilhas). A publicação mais ‘viral’ ligava a uma notícia positiva do Jornal de Notícias, com o maior número de recuperados registado em Portugal até ao momento, com mais de 3 mil interações. A segunda publicação mais interativa era relativa ao prolongamento do prazo para validação de documentos, e a terceira era o live/vídeo da conferência de imprensa diária da Direção-Geral da Saúde.

No top20 das publicações sobre a Covid-19 que suscitaram mais interesse nas páginas de Facebook portuguesas estão assuntos muito diversos, mas a maior parte deles relacionados com as regras que irão regular a fase do processo de desconfinamento que começa na próxima semana. Entre as publicações mais populares está também um agradecimento a Bruno Nogueira pela série de ‘lives’ que prendeu muito portugueses ao Instagram durante o confinamento.

Nos 22 grupos de Facebook especificamente vocacionados para a Covid-19 que estamos a monitorizar, houve nas últimas 24 horas 280 publicações, que geraram 5829 interações (‘likes’, comentários e partilhas). Entre as preocupações principais destacam-se as regras que irão vigorar para o acesso às praias, ontem anunciadas. Noutro plano, as declarações do virologista Pedro Simas à TVI também obtiveram eco num dos grupos.

No Twitter português foram publicados no dia de ontem 2518 tweets e 3057 retweets sobre a Covid-19. Curiosamente, o pico diário das publicações sobre o tema coincidiu com a hora da conferência de imprensa diária da DGS. Os temas mais abordados são também aqueles que se prendem com o processo gradual de desconfinamento, sem nenhum que se destaque especialmente.

Dúvidas sobre o futuro nas pesquisas

Doença de Kawasaki” voltou a ser um dos termos mais pesquisados, em Portugal, no Google. Depois dos alertas sobre a Covid-19 e o coronavírus se centrarem sobretudo no perigo exponencial para os mais velhos, a preocupação com esta síndrome que afeta as crianças parece ter vindo para ficar nas pesquisas. Com o início da época de balnear anunciado para 6 de junho, a procura de informação sobre as regras para frequentar as praias continua, e a palavra ” Praias” está no top das pesquisas.

Outra pesquisa completamente diferente foi por “Adaptar”, o novo Programa que contempla apoios para as micro, pequenas e médias empresas se ajustarem às regras do desconfinamento, que está disponível desde sexta feira.

Artigo anterior
Próximo artigoO que é o programa Adaptar?

ÚLTIMOS ARTIGOS

Artigos Relacionados

Medidas do Governo, medicamentos e entidades oficiais encabeçam as pesquisas relacionadas com a Covid-19

As pesquisas realizadas em Portugal, durante os últimos quatro meses, dão-nos pistas sobre as preocupações, as necessidades de esclarecimento e procura de informação acerca...

Desde 9 de maio, início deste projeto, que os psicanalistas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise se envolveram na tarefa de criar pequenos textos, nos quais a vivência subjetiva do momento ganhasse forma em palavras, em pequenos textos de variados ritmos, recorrendo frequentemente à arte expressa por escritores e poetas. Falaram sobre o medo, o tempo suspenso, a morte, a angústia, a esperança, a criatividade, o amor, a solidariedade e o cansaço. Falaram também da violência humana e da injustiça, do sentimento de impotência e de ilusão.
Dia a dia, criaram textos que falavam de si e dos outros, numa procura de sentido e de sentires. Tentaram dar nome à inquietante estranheza que brutalmente nos invadia.
O imenso testemunho de que todo este projeto fala perdurará para além deste momento marcante da nossa história mundial, nacional e pessoal. Para o conjunto dos membros da nossa Sociedade Portuguesa de Psicanálise este tem sido um tempo e um processo de aprendizagem, de coesão, de partilha, de exposição e de transformação, no encontro com o outro, da relação existente e imaginada com o possível leitor.
Este foi um dos projetos em que nos envolvemos por acreditarmos que a Psicanálise pode e deve participar mais activamente na comunidade, nomeadamente, em momentos em que o Ser Humano é obrigado a sofrer e a realizar alterações tão profundas na sua vida.
Falámos de pesadelos e de histórias tranquilizadoras, da criatividade e generosidade humanas e muito, mas muito, do desejo de saber e de participarmos na construção do pensamento e do conhecimento. E não há conhecimento sem verdade, por mais dolorosa que ela seja. Desistir das falsas ilusões é conhecer a realidade e poder criar e lutar por sonhos, ainda que por vezes estes possam parecer utopias.
“Transformar é Viver” significa para nós que Viver é sempre Transformar, mesmo quando não temos consciência de o estarmos a fazer.
Até sempre!

Covid-19 foi ‘explosivo’ nas redes sociais mas perdeu impacto ao longo do tempo

Entre o início de março e o final e julho monitorizámos as redes sociais Facebook e Twitter para tentar perceber como é que a...