Bons números suportam desconfinamento

À medida que os portugueses saem mais e retomam alguns hábitos (crianças vão às creches, alunos do secundário a algumas aulas, cidadãos em geral tomar um café ou comer fora), os números da pandemia em Portugal parecem suportar esse retorno a alguma normalidade.

A comunicação do dia confirmou que desde 20 abril o número médio semanal de internamentos e óbitos tem diminuído. É igualmente positivo que entre 13 e 17 de maio (segunda semana da primeira fase desconfinamento) a média de RT estimado é de 0,95 (ou seja, cada infetado infetou menos de uma pessoa). Foi transmitido um sinal de confiança, mas deixado o alerta de que, apesar dos números, é fundamental continuar a cumprir as normas da DGS, que vão sendo atualizadas em função do contexto.

O que é novo são alterações à orientação para os transportes públicos, que continua a colocar enfase na desinfeção de superfícies. Tal deve-se ao facto de ainda não existir evidência científica sólida que o vírus não se transmita através de superfícies e objetos, apesar de alguns estudos dos últimos dias o sugerirem. Assim, os transportes públicos (tal como todas as superfícies de contacto constante, como maçanetas ou puxadores) continuam a ser considerados potenciais fontes de contágio, merecendo higienização cuidada.

Já olhando para o futuro, foi comunicado que a compra de vacinas da gripe é um assunto importante para o Ministério da Saúde, no sentido de prever um eventual cruzamento entre duas epidemias – a da gripe sazonal (influenza) e uma eventual continuação ou regresso da epidemia de coronavírus. Por isso estão já em processo os habituais concursos públicos para a compra atempada da vacina da gripe necessária em Portugal.

Outro tema recorrente dos últimos dias é a questão das grávidas, partos e maternidade. Agora foi explicado que a orientação da DGS específica para as grávidas ainda está a ser trabalhada, tendo apenas saído nova orientação face ao acompanhamento do recém-nascido. Quanto à presença de acompanhante no parto, haverá uma regra específica que consistirá na adaptação de uma regra geral (espaço, risco de contágio, segurança) a um momento singular, podendo em última análise caber à equipa clínica decidir.

Sobre os surtos identificados, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a situação está a ser acompanhada pelo hospital. Existem 9 profissionais de saúde Covid-19 positivo, 35 negativo e 25 testes em curso. Só 3 doentes testaram positivos e foram transferidos para unidades Covid. A Situação é considerada estável e controlada por um serviço específico do referido hospital. Relativamente ao surto identificado na Plataforma na Azambuja, é normal encontrar positivos em contexto de surto, de acordo com o rastreio e política de testes. Ficou claro que estão a ser tomadas todas as medidas possíveis para conter o surto com a colaboração de um conjunto de entidades.

Apesar do regresso controlado às ruas e negócios, há setores que ainda não têm autorização para reabrir, como bares e discotecas, mas também ginásios. Sobre estes foi explicado que ainda não há uma data definida para abertura dos ginásios nem compete à DGS definir uma data.

A conspiração chinesa na desinformação

A desinformação nas redes sociais hoje aponta baterias à China, na sequência de inúmeras teorias da conspiração sem fundamento sobre a “culpa” do país na pandemia. A primeira informação imprecisa a circular é que Shulan é a nova Wuhan. A cidade de Shulan, no Norte da China, junto à fronteira com a Rússia e a Coreia do Norte, tem visto um agravamento de medidas restritivas, com a imposição de um confinamento total desde dia 19 de maio face ao número crescente de casos. Neste momento, a cidade ainda regista um número muito reduzido de casos e as medidas restritivas podem conter o surto, sendo ainda demasiado cedo para fazer comparações entre as duas metrópoles.

Na mesma linha vem a informação falsa de que os principais surtos virais dos últimos 70 anos vieram da China, o que é incorreto. Dos principais surtos virais que surgiram nos últimos 70 anos alguns vieram da China, mas outros foram inicialmente identificados em Hong Kong (numa altura em que ainda era território britânico), Singapura, Sudão, Estados Unidos ou México.

A preocupação dos pais leva a que a síndrome de Kawasaki seja um tema recorrente, e agora circula a informação de que morreu um bebé com Kawasaki em consequência da Covid-19 no Reino Unido. Mas esta informação é altamente imprecisa. Segundo diversos tablóides britânicos terá falecido no passado dia 25 de abril, no Reino Unido, um bebé de 8 meses com a doença de Kawasaki, e há quem alegue que terá sido causada pela Covid-19. Existem já alguns estudos com pequenas amostras que ligam reações excessivas do sistema imunitário das crianças à Covid-19, mas sem ligações conclusivas à Kawasaki. Também não foram identificados elementos que pudessem confirmar que o bebé em questão tinha ou não Covid-19, estando os pais a aguardar pelos resultados da autópsia. Em Portugal houve apenas um caso com sintomas semelhantes, mas sem consequências.

Nas últimas 24 horas foram publicados, nas páginas de Facebook portuguesas, 1732 conteúdos com referência à Covid-19, os quais geraram 141 mil interações (‘likes’, comentários e partilhas). O post mais ‘viral’ – destacadamente – é um vídeo da Direção-Geral de Saúde, apelando ao civismo dos cidadãos nesta altura de desconfinamento. Esta publicação tem mais de 15 mil interações (13.500 ‘likes’, 643 comentários e mais de 1500 partilhas). A história de um bebé que alegadamente terá morrido com doença de Kawasaki e uma informação da Guarda Nacional Republicana com informações sobre a validade dos documentos são as publicações que se seguem neste ranking.

No conjunto das 20 publicações que geraram mais interações nas últimas 24 horas registe-se ainda a presença de notícias sobre as declarações de Ursula von der Leyen de que uma vacina deve ser universal e do presidente Donald Trump afirmando que o facto de os EUA serem o país com mais casos confirmados é um “motivo de orgulho”. Por fim, como “fait-divers”, destaque ainda para uma enfermeira russa que alegadamente esteve a trabalhar vestida apenas com roupa interior por baixo do fato de proteção.

Entre os grupos públicos de Facebook dedicados à Covid-19, foram publicados nas últimas 24 horas 228 conteúdos, que geraram 5383 interações. A publicação mais “viral”, também destacada, foi uma relativa à prorrogação da situação de calamidade e que determina em que condições podemos votar à atividade. Esta publicação teve mais de 1700 interações. No resto dos 10 conteúdos com mais interações encontramos igualmente, por duas vezes, informações sobre a cidade chinesa de Shulan, que, alegadamente, está agora em quarentena, depois de Wuhan. Esta informação parece gerar alguma preocupação nos grupos Covid em Portugal.

No Twitter, durante o dia de ontem foram publicadas 5847 mensagens com referência à Covid-19 (2303 tweets e 3221 retweets). Existe um pico às 13h, coincidindo com a conferência de imprensa da Direção-Geral de Saúde, mas o número máximo de mensagens foi obtido à noite, devido a alguns tweets de jovens utilizadores que foram bastante retweetados. Os utilizadores mais influentes refletem isso mesmo. Quanto aos utilizadores que publicaram mais mensagens sobre o tema (mais uma vez, contando tweets e retweets) destaca-se o Jornal Destak, seguido do utilizador @marciojmsilva.

Preocupação com crianças nas pesquisas

Entre os mais pesquisados ontem dentro da temática da Covid-19 apenas se destaca a pesquisa por Doença de Kawasaki, possivelmente porque veio a lume, nos media, a história de uma menina de 5 anos no Reino Unido que supostamente foi infetada com o coronavírus na escola e que, depois de ter recuperado relativamente depressa, segundo relatam os media, está agora com a doença de Kawasaki.

As pesquisas por esta doença, ou síndrome, têm vindo a ser recorrentes, sobretudo numa altura em que as escolas para os mais pequenos reabriram. No entanto, ainda não há dados suficientes que permitam ligar, sem dúvida, as duas condições.

Foi ainda pesquisado Badoca Park, que anunciou a sua abertura no dia 1 de junho, Dia Mundial da Criança, depois do fecho (e dificuldades financeiras) por causa da pandemia.

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Dia a dia, criaram textos que falavam de si e dos outros, numa procura de sentido e de sentires. Tentaram dar nome à inquietante estranheza que brutalmente nos invadia.
O imenso testemunho de que todo este projeto fala perdurará para além deste momento marcante da nossa história mundial, nacional e pessoal. Para o conjunto dos membros da nossa Sociedade Portuguesa de Psicanálise este tem sido um tempo e um processo de aprendizagem, de coesão, de partilha, de exposição e de transformação, no encontro com o outro, da relação existente e imaginada com o possível leitor.
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Falámos de pesadelos e de histórias tranquilizadoras, da criatividade e generosidade humanas e muito, mas muito, do desejo de saber e de participarmos na construção do pensamento e do conhecimento. E não há conhecimento sem verdade, por mais dolorosa que ela seja. Desistir das falsas ilusões é conhecer a realidade e poder criar e lutar por sonhos, ainda que por vezes estes possam parecer utopias.
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