Barreira dos 50 mil casos obriga-nos a pensar

Não é dramático por si só, mas sempre que se ultrapassa um número redondo é impossível não parar para pensar um segundo. E Portugal passou a barreira dos 50 mil casos de Covid-19, num dia em que houve apenas 209 novas infeções, e como habitual muito concentradas (74% na região de Lisboa).

Fora isso, os problemas são desrespeito pela regras e focos muito específicos, como o que surgiu na aldeia de Póvoa de São Miguel, concelho Moura, e já tem 26 casos confirmados, dos quais um internado, ou no Vimieiro, concelho de Arraiolos, onde já há 10 infetados.

A nível global já há mais de 16 milhões de casos identificados e 644528 mortes registadas, segundo a Universidade John Hopkins. Nos próximos dias é inevitável que se ultrapassassem as 150 mil mortes por Covid-19 nos EUA, e as projeções oficiais indicam que só quarentena apertada em várias regiões do país e uso de máscaras por 95% da população podem travar a imparável curva ascendente. Isto quando Donald Trump continua a insistir na reabertura das escolas, ameaçando tudo e todos se não o fizerem. Projeções mais pessimistas apontam para 250 mil mortes até novembro e 150 mil novas infeções por dia no outono. A curto prazo, o famoso CDC (Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças) acredita que se chegue aos 175 mil mortos nas próximas três semanas.

Coincidência ou não, em Israel chegou-se à conclusão que a reabertura das escolas demasiado depressa foi fator fundamental na disseminação do vírus, que o país tinha controlado.

Em Espanha, com o número de novos casos a crescer de novo em várias comunidades, põe-se em causa os 28432 mortos reportados na contagem oficial, que apenas inclui pessoas que foram formalmente diagnosticadas com coronavírus, e não casos suspeitos que nunca foram testados. Por isso são apontadas como reais um total de 44868 mortes (mais 16436 do que as reportadas oficialmente).

Desinformação cada vez mais inacreditável

 A desinformação recorre a argumentos cada vez mais inacreditáveis, sempre na tentativa de minar os esforços de estados e cidadãos para travar a pandemia.

Por isso, fique a saber que é incorreta a informação de que a vacina para a pneumonia também é eficaz contra a Covid-19. As vacinas contra pneumonias, nomeadamente contra a influenza ou outros vírus que atacam o sistema respiratório, não são eficazes contra a Covid-19, embora sejam recomendáveis, sobretudo para grupos de risco, como método preventivo em geral. Além disso, no caso de ser contagiado com o Sars-Cov2, contribuem para não ser mais um fator de risco, caso fique doente.

Da mesma forma, é totalmente incorreto que exista algum e estudo recente que provou que as pessoas que usam máscara têm um QI mais baixo. A reivindicação viral nas redes sociais alega que um estudo que avaliou o QI das pessoas e a sua decisão de usar ou não máscara estaria interligado, alegando que os indivíduos com um nível de inteligência mais baixo eram os que usavam máscara. Uma verificação de factos constatou que o estudo não existe, faz apenas parte um artigo de sátira que foi descontextualizado, passando a mensagem errada. Tendo em conta os dados científicos disponíveis, seria mais natural que tal estudo, a existir, indicasse que as pessoas com QI mais baixo sejam as que se recusam a usar máscara, sem razão, mesmo que a ciência a recomende.

Por fim, não acredite que o dióxido de cloro cura a Covid-19, pois isso é totalmente incorreto. O Polígrafo identificou nas redes sociais esta reivindicação falsa, que defende que o dióxido de cloro, quando ingerido, cura diversas doenças, desde a Covid-19 à malária e ao Alzheimer. A plataforma de verificação de factos falou não só com especialistas portugueses como destaca a posição de autoridades de saúde internacionais, que há anos tentam alertar para o perigo de vida que se corre na sua ingestão.

Relatório da DGS gera atenção

Nas últimas 24 horas, as páginas de Facebook em Portugal partilharam 675 conteúdos relacionados com a Covid-19, os quais geraram um total de 45 mil interações (‘likes’, comentários e partilhas), sensivelmente menos do que nos dias anteriores. A publicação que mereceu mais atenção dos utilizadores foi o relatório diário da Direção-Geral da Saúde, com quase 1600 interações. A segunda publicação mais popular nesse período pertence ao Jornal de Notícias, e dá uma notícia sobre 13 freiras mortas por Covid-19 num só convento nos Estados Unidos. O lugar mais baixo deste pódio ficou para uma publicação, da página oficial do deputado do PSD Ricardo Batista Leite, elogiando a máscara desenvolvida em Portugal que torna o coronavírus inativo.

Nas restantes publicações deste top20 destaque ainda para o aumento do número de casos em vários países, nomeadamente em Espanha, e para a aparente cura do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Nos grupos de Facebook dedicados à Covid-19, o mesmo período de 24 horas trouxe 59 publicações, que geraram 1557 interações (‘likes’, comentários e partilhas). Os temas são também bastante diversificados, mas vários deles têm a ver com a realidade dos visitantes que vêm do Reino Unido.

Hoje voltou a não haver pesquisas relevantes sobre a Covid-19 em Portugal.

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Dia a dia, criaram textos que falavam de si e dos outros, numa procura de sentido e de sentires. Tentaram dar nome à inquietante estranheza que brutalmente nos invadia.
O imenso testemunho de que todo este projeto fala perdurará para além deste momento marcante da nossa história mundial, nacional e pessoal. Para o conjunto dos membros da nossa Sociedade Portuguesa de Psicanálise este tem sido um tempo e um processo de aprendizagem, de coesão, de partilha, de exposição e de transformação, no encontro com o outro, da relação existente e imaginada com o possível leitor.
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