A Peste: crença e descrença

Aquilo a que nos últimos dois séculos chamámos de pandemia já foi chamado de peste. Para alguns, estes são tempos de um novo tipo de peste, para outros esta peste não existe. Embora os nomes mudem, os sentimentos mantêm-se. Estes sentimentos têm várias faces: o medo e a descrença. O medo é produto do desconhecido ou do desconhecimento. A descrença é um fenómeno que importa compreender melhor, mas que também está ligado ao medo.

Na Idade Média não possuíamos a informação sobre as doenças que hoje possuímos, nem a maioria da população em geral sabia ler nem escrever. Se tanto mudou, nos últimos séculos, no campo da ciência e da sociedade, porque continuamos a precisar de páginas de projetos, conferências de imprensa, artigos de imprensa e reportagens que nos assegurem que dada informação é certa ou errada? A resposta para uma pergunta tão complexa talvez tenha uma resposta simples.

Uma pandemia muda, de forma radical, as nossas rotinas do quotidiano. Para muitos de nós tal é difícil de aceitar, mas percebemos lentamente que mudar é preciso. Para muitos outros, o impacto da mudança é tão forte que é mais fácil não acreditar. Por outro lado, mesmo para muitos dos que entenderam que a mudança é necessária, a demora em tudo regressar ao normal levou-os a aceitar a descrença como a forma mais fácil de lidar com a mudança.

O nosso mundo pré-pandemia era um mundo de quotidiano acelerado e alta velocidade na economia, nas deslocações, nos mercados, nas compras, nas saídas, no trabalho e na escola. Este “nosso” tempo era um tempo em que a velocidade do mercado e do quotidiano era produto de uma outra velocidade muito mais baixa, a da ciência. Para nos dar uma ideia clara do que se fala, basta pensar que a Internet que hoje usamos foi criada em 1969. Ou seja, demorou 50 anos a ser o que hoje conhecemos ou, se preferirmos, duas gerações, cada uma de 25 anos, a ser o espaço das redes sociais, do teletrabalho, dos jogos ou do Netflix.

Com a pandemia em março de 2020 perguntámos onde está a vacina? E a expectativa de muitos era a de que seria tão rápido como qualquer outra coisa que compramos a uma empresa ou nos é prestada na saúde pelo Estado.

No entanto, o tempo da ciência não é o tempo do consumo, nem do trabalho, muito menos é o das redes financeiras ou o da opinião nas redes sociais. Para muitos a esperança numa ciência rápida e cura rápida para a mudança radical do dia-a-dia caiu rapidamente em desgraça, e daí até à descrença foi uma rápida viagem. A constatação para muitos pode ser que, precisamente, se não há cura rápida, então pode ser duvidoso que tudo o que nos é dito seja mesmo assim, tornando mais confortável negar aquilo que coloca em causa a normalidade das nossas vidas.

Entre o “não há pandemia nenhuma”, “as máscaras intoxicam as pessoas” ou “a cura existe e chama-se hidroxicloroquina” vão muitas diferenças e muitos estados de alma diferentes, mas em comum têm o facto de serem falsas certezas a que muitos se agarram para mais facilmente ultrapassar o que coloca em causa empregos, relações, hábitos, rotinas, certezas e práticas.

O que importa perceber é que o que é natural para uns, aceitar que estamos numa pandemia e temos de mudar as práticas, não o é para outros. Para muitos o normal é acreditar que não há pandemia ou que uma parte do que nos informam ser para nos defender não é para acreditar. Ambas as situações decorrem da forma como nos é mais fácil lidar com a mudança radical de quotidiano e a única forma de proteger todos é perceber que é lenta a adaptação e que nem tudo poderá ser resolvido com mais informação, imposição de medidas e aumento de literacias. Haverá sempre uma percentagem de nós aos quais apenas os mais próximos poderão chegar ou em que só a pedagogia das equipas no terreno ajudará a perceber que não há nenhuma conspiração global, que as soluções de problemas nunca são agradáveis, mas são sempre melhores que viver os problemas.

O desafio de divulgar ciência e fazer ciência em simultâneo com o desenrolar de um fenómeno, como esta pandemia, foi, é e será sempre um desafio. O estudo recente do OberCom e da Intercampus revela que mais de 70% dos portugueses, durante o período de confinamento, cruzaram-se com informação que lhes provocou desconfiança ou que foi identificada por si como falsa. Já no desconfinamento, os valores desceram para mais de 50%. Cerca de 30% de nós declararam que o contacto com o falso e o incerto teve uma incidência diária. Números mais desafiantes são aqueles em que mais de 40% dos portugueses revela ter dificuldades em saber o que é verdadeiro e falso sobre o coronavírus, e mais de um terço diz evitar notícias sobre a situação da Covid-19.

No entanto, há também boas notícias. Pois, mais de 70% dos portugueses sabe o que fazer para dar resposta ao coronavírus. Muito se deverá à comunicação social e às instituições da República Portuguesa no esclarecimento dos portugueses e algo, esperamos nós, se poderá dever ao que o CovidCheck produziu ao longo destes meses de confinamento e desconfinamento. Agora que este projeto, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, termina, fica a certeza, por parte da nossa equipa de investigação, de que demos o nosso melhor e que pensamos o mesmo que os cerca de 60% de portugueses que concordam com a ideia de que a pandemia está também a mostrar alguns aspetos positivos da sociedade portuguesa, nomeadamente na entreajuda entre todos nós.

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Desde 9 de maio, início deste projeto, que os psicanalistas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise se envolveram na tarefa de criar pequenos textos, nos quais a vivência subjetiva do momento ganhasse forma em palavras, em pequenos textos de variados ritmos, recorrendo frequentemente à arte expressa por escritores e poetas. Falaram sobre o medo, o tempo suspenso, a morte, a angústia, a esperança, a criatividade, o amor, a solidariedade e o cansaço. Falaram também da violência humana e da injustiça, do sentimento de impotência e de ilusão.
Dia a dia, criaram textos que falavam de si e dos outros, numa procura de sentido e de sentires. Tentaram dar nome à inquietante estranheza que brutalmente nos invadia.
O imenso testemunho de que todo este projeto fala perdurará para além deste momento marcante da nossa história mundial, nacional e pessoal. Para o conjunto dos membros da nossa Sociedade Portuguesa de Psicanálise este tem sido um tempo e um processo de aprendizagem, de coesão, de partilha, de exposição e de transformação, no encontro com o outro, da relação existente e imaginada com o possível leitor.
Este foi um dos projetos em que nos envolvemos por acreditarmos que a Psicanálise pode e deve participar mais activamente na comunidade, nomeadamente, em momentos em que o Ser Humano é obrigado a sofrer e a realizar alterações tão profundas na sua vida.
Falámos de pesadelos e de histórias tranquilizadoras, da criatividade e generosidade humanas e muito, mas muito, do desejo de saber e de participarmos na construção do pensamento e do conhecimento. E não há conhecimento sem verdade, por mais dolorosa que ela seja. Desistir das falsas ilusões é conhecer a realidade e poder criar e lutar por sonhos, ainda que por vezes estes possam parecer utopias.
“Transformar é Viver” significa para nós que Viver é sempre Transformar, mesmo quando não temos consciência de o estarmos a fazer.
Até sempre!

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