A estabilidade que ninguém quer, mas ninguém desdenha

Mais um dia assim-assim para a evolução da pandemia de Covid-19 em Portugal, com 229 novos casos. O padrão é similar ao de ontem, não tão bom como no início da semana, mas bastante melhor do que as semanas anteriores.

Nota de maior preocupação são os 40 dos 206 trabalhadores da empresa de transformação de carnes Ribasabores, em Tomar, que tiveram testes positivos. Nota que pode ser positiva, em especial para o setor do turismo, é que Portugal poderá integrar a lista de países isentos de quarentena à chegada ao Reino Unido, já nos próximos dias, no âmbito da reavaliação que o governo britânico fará ainda este mês sobre a quarentena obrigatória para quem chega de determinados países.

Mas hoje foi também o dia em que a Europa ultrapassou os três milhões de casos, e em vários países há um crescimento das infeções: no Reino Unido houve 769 novos casos, um aumento de 37%. Em Espanha foram 971, e isto levou já o governo francês a avisar que vai avaliar já amanhã a possibilidade de fechar as fronteiras terrestres com Espanha.

Uma novidade transeuropeia foi a decisão da EU de aprovar medidas de higiene uniformes em aeroportos e aviões, que podem resolver muitas indignações dos cidadãos sobre eventuais faltas de controle sanitário. O plano higiénico comum em aviões e aeroportos inclui distanciamento social e uso de máscaras para todos os maiores de 6 anos em todos os espaços de aeroporto. Nos aviões não é obrigatório o lugar do meio estar vazio, mas é necessária renovação constante de ar fresco e ter orientações disponíveis em várias linguagens.

A nível global, os EUA quase bateram os 64 mil novos infetados, no que é o nono dia consecutivo acima dos 60 mil. A Índia registou mais de 45 mil novos casos e ultrapassou 1,2 milhões de infeções. Em todo o mundo, o coronavírus já infetou mais de 15,2 milhões e matou 623 mil pessoas.

Tentativas de descredibilização dominam desinformação

 Se pensa que, em Portugal, as pessoas não estão a morrer de Covid-19 mas sim de outras doenças devido ao atraso de consultas e cirurgias, fique a saber que é incorreto. Não obstante o impacto negativo que poderá ter o atraso de consultas e cirurgias devido à situação de pandemia, em Portugal apenas é declarada uma morte por Covid-19 quando existem causa e sintomas associados à doença, quando testam positivo para o coronavírus e é identificada uma infeção. No entanto, é possível que exista uma pequena percentagem de mortes em excesso, por o critério ser mais abrangente do que em outros países.

E se pensa ou ouviu dizer que o inventor do teste de PCR, que também é usado para identificar o Sars-Cov2, disse que o uso do seu teste é uma fachada, saiba que isso é incorreto por uma razão muito simples. O inventor do teste de PCR faleceu em Agosto de 2019, antes da declaração da pandemia, e o seu teste é reconhecido pela comunidade científica como um método válido e fiável de testar se alguém está infetado com Sars-Cov2.

E se ficou assustado porque ouviu dizer que em cada 20 pessoas hospitalizadas por Covid-19, 19 ficarão com problemas de saúde para a vida, saiba que tal afirmação é imprecisa. A publicação tornou-se viral e alega que a nível respiratório, cardíaco e neurológico haverá consequências permanentes para a saúde daqueles a quem a doença atacar de forma mais intensa e que foram hospitalizados. Neste momento, devido ao carácter recente da doença, não existem dados sobre as suas consequências a longo prazo. A curto prazo, verificam-se consequências a estes três níveis, mas não na percentagem apresentada de 19 em 20 pessoas.

Profetas, orações e messias

Nas últimas 24 horas, as páginas de Facebook em Portugal partilharam 1098 publicações relacionadas com a Covid-19, as quais deram origem a 88 mil interações, contabilizando ‘likes’, comentários e partilhas. A publicação mais popular sobre o tema nesse período foi um ‘live’ de Camilo Lourenço, em que o tema foi abordado e que mereceu 11 mil interações. A segunda publicação mais popular – da página “Custódios de Maria” – é religiosa e sugere uma oração para afastar o vírus (tem 3679 interações). O terceiro lugar do pódio é ocupado por uma publicação de Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, sobre um financiamento para investigação da Covid-19 atribuído a um laboratório da cidade. Teve 2937 interações.

No resto da tabela das 20 publicações mais populares, é referido mais do que uma vez o caso das 12 freiras que morreram no espaço de um mês num convento em Detroit, nos Estados Unidos. Além disso também ainda há referências a três casos que já vêm do dia anterior: o homem que subiu à janela do hospital para ver a mãe; a entrada de estrangeiros sem serem submetidos a teste; e a próxima temporada da “Anatomia de Grey” que será sobre a pandemia.

Nos grupos de Facebook dedicados à Covid-19, o mesmo período de 24 horas registou 96 publicações com 973 interações associadas. E dois dos temas que vêm do dia anterior aparecem como aqueles que despertaram mais interesse: o paradeiro desconhecido de 5 mil portugueses infetados, e os passageiros chegados a Portugal que não são sujeitos a teste de despistagem do vírus.

Não se verificaram pesquisas relevantes sobre o tema.

 

 

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