Cedo para balanços, tempo para consciência cívica e social

Em dia de mais medidas de desconfinamento, a Direção-geral da Saúde destaca a ideia de ainda não ser o momento para balanços, mas sim para continuar. Espera-se que o balanço venha a ser positivo, mas depende da consciência cívica e social. Merece destaque o apelo aos cuidadores e educadores para vacinar as crianças, evitando outras doenças infeciosas.

Mensagem clara sobre a reabertura das creches: deve ser feito tudo o que os adultos e o espaço permitam para evitar o contágio, minimizando cruzamento entre crianças e o contágio adultos-crianças. O papel dos adultos é ajudar a evitar o contágio e as normas devem ser aplicadas em função do espaço.

Em termos de evolução da pandemia em Portugal a DGS indicou apenas notas soltas, mas claras: a taxa de ocupação de unidades de cuidado intensivo é estável (53% em unidades de adultos); existe confiança em que o SNS venha a responder como aconteceu até agora, em casos Covid-19 e não Covid-19; as decisões tomadas são sustentadas na evidência científica disponível, equilibrando-as com as melhores práticas sanitárias e a viabilidade da sua aplicação; quanto mais testes se realizarem mais se saberá sobre a realidade epidemiológica do país; está previsto continuar a chegar com regularidade equipamento de proteção individual.

Facto importante é a tendência decrescente do RT (taxa de contágio) em Lisboa e Vale do Tejo (região em que era mais elevado), mas também nas outras regiões.

Numa comunicação em termos gerais focada e clara, a exceção foi sobre o regresso do futebol. A DGS e a Federação Portuguesa de Futebol colaboraram e estabeleceram regras de conduta para minimizar casos, subordinadas ao princípio da precaução. Mas ao afirmar que no âmbito do futebol o nível de responsabilização dos intervenientes será decidido em sede própria passou-se uma mensagem confusa, quase incompreensível, que a DGS deve clarificar.

Esperança na BCG e medo de transmissão sexual

Nas redes sociais a desinformação sobre a Covid-19 centrou-se nas esperanças sem provas de que a vacina BCG possa ser a solução para a pandemia, no medo de que o coronavírus possa ser transmitido por via sexual e no boato que Daniel Radcliffe está infetado.

A realidade é que ainda não existem provas de que a BCG protege contra a Covid-19, embora existam estudos a decorrer que procuram apurar o seu possível impacto. Da mesma forma, é impreciso dizer que o coronavírus pode ser transmitido sexualmente. É verdade que um estudo com pacientes chineses identificou o código genético do vírus em pessoas recuperadas, mas ainda não se podem tirar conclusões. Por fim, o ator que deu corpo a Harry Potter no cinema, Daniel Radcliffe, não tem Covid-19 nem está infetado.

Fernando Rocha dominou completamente a discussão nas páginas do Facebook. O ator e comediante conseguiu finalmente saber que está curado da Covid-19, depois de sete testes e cinco resultados positivos, e isso foi amplamente noticiado por várias páginas no Facebook. A publicação mais popular, com 10271 interações, foi do “Jornal de Notícias”. Rui Moreira, presidente da autarquia do Porto (em 6º) e a conferência de imprensa da Direção-Geral de Saúde (em 9º) também estão no top10 do Facebook.

Nos grupos de Facebook portugueses dedicados à Covid-19, o tema principal são as crianças e – sobretudo – as condições de trabalho das educadoras de infância no contexto do regresso gradual à normalidade. A publicação com mais interações aborda o problema da violência sobre as crianças, a propósito do caso “Valentina”.

No Twitter foi sobretudo o futebol que concentrou as atenções acerca da Covid-19. Um futebolista do Benfica – David Tavares – diagnosticado como positivo, juntamente com jogadores de outras equipas, levantam dúvidas sobre o anunciado recomeço das competições. Aparentemente não há preocupações de saúde a destacarem-se no Twitter em Portugal.

Pesquisas levam a petição

As pesquisas relacionadas com a Covid-19 em Portugal mostram a procura de informação sobre a suposta relação entre a toma da vacina BCG e um menor número de casos da doença. Há inclusive uma petição a pedir que a vacina seja reintroduzida no Programa Nacional de Vacinação. Enquanto o termo “vacina BCG” é o mais pesquisado, também se encontra a pesquisa simplesmente por “BCG”.

A Síndrome de Kawasaki, que tem sido associado à Covid-19, foi também bastante pesquisada, por um lado porque continuam a sair notícias sobre o assunto, por outro porque uma criança internada no Hospital D. Estefânia, em Lisboa, que testou positivo para o coronavírus, teria a síndrome (suspeita que não se confirmou).

A Festa do Avante continua a aparecer nas pesquisas, graças à polémica da sua realização ou não, uma vez que o Governo proibiu os festivais de verão, mas António Costa veio afirmar, em relação à festa do Avante, que não podia impedir atividade política.

Num dia calmo na comunicação oficial, destacam-se os cuidados a ter com as crianças, a necessidade de se manter informado e não ter falsas esperanças em curas milagrosas que ditem o final da pandemia. Mais uma vez, a principal mensagem é que o fim da pandemia depende da consciência cívica e social dos cidadãos.

Para a Sociedade Portuguesa de Psicanálise, uma sociedade doente é aquela que logo que lhe parece justificado renega a sexualidade e se surpreende com a sua violência.

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Dia a dia, criaram textos que falavam de si e dos outros, numa procura de sentido e de sentires. Tentaram dar nome à inquietante estranheza que brutalmente nos invadia.
O imenso testemunho de que todo este projeto fala perdurará para além deste momento marcante da nossa história mundial, nacional e pessoal. Para o conjunto dos membros da nossa Sociedade Portuguesa de Psicanálise este tem sido um tempo e um processo de aprendizagem, de coesão, de partilha, de exposição e de transformação, no encontro com o outro, da relação existente e imaginada com o possível leitor.
Este foi um dos projetos em que nos envolvemos por acreditarmos que a Psicanálise pode e deve participar mais activamente na comunidade, nomeadamente, em momentos em que o Ser Humano é obrigado a sofrer e a realizar alterações tão profundas na sua vida.
Falámos de pesadelos e de histórias tranquilizadoras, da criatividade e generosidade humanas e muito, mas muito, do desejo de saber e de participarmos na construção do pensamento e do conhecimento. E não há conhecimento sem verdade, por mais dolorosa que ela seja. Desistir das falsas ilusões é conhecer a realidade e poder criar e lutar por sonhos, ainda que por vezes estes possam parecer utopias.
“Transformar é Viver” significa para nós que Viver é sempre Transformar, mesmo quando não temos consciência de o estarmos a fazer.
Até sempre!

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